Área do aluno

Einstein e Eddington – Imagens de Genialidades

imagem de uma espiga de milho, com alguns milhos e pipoca espalhados ao lado da espiga

Einstein e Eddington
Imagens de Genialidades

Fernando Franco Fonseca

“Uma imagem vale mais que mil palavras”.
Confúcio

“…ou quem foi que o disse”.
Miguel de Cervantes

Podemos compreender o enorme valor de uma imagem, pois “uma imagem vale mais que mil palavras”; porém, devemos reconhecer que, sem estas sete palavras, juntas e dispostas formando uma frase singular, não conseguiríamos enaltecer esse valor. Assim, as mil palavras que valem a imagem valem tanto quanto as sete palavras que apresentam o referido valor da imagem.

Simplificando, temos uma equação de alguns graus de igualdade:

[1000p = 1x = 7p = 1f]

Onde p (palavra), x (imagem), f (frase) e = (igual) é o objetivo, aproximado, dessa equação entre as pessoas.

Genialidade, altas habilidades ou superdotação, não importa o nome que se dê, é tema de “equação”, aqui já apresentada de forma figurativa, e que juntos analisaremos, comparando a importância icônica de uma imagem (gênio; protagonista) em presença de uma frase, sete palavras (família, escola, igreja, clube e lugares diversos; coadjuvantes e figurantes), tendo como pano de fundo (ou tela de cinema) um filme (ou coleção de imagens).


Einstein e Eddington 02

Einstein e Eddington 02
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Para que pensar no desenvolvimento da ciência? Preocupar-se com conceitos como magnetismo, gravidade, eletromagnetismo, força fraca, força forte? Em um momento como este, preocupar-se com os nomes daquelas pessoas que transformaram a nossa sociedade, a partir de suas observações, de seus estudos, de suas experiências, hipóteses, conclusões e atitudes. Pessoas que conseguiram compreender os fenômenos que nos cercam e utilizá-los, gradativamente, progressivamente, de tal forma que isso chegou até nossa casa, nosso trabalho, nosso lazer e a nossa vida diária, possibilitando conforto, segurança e muito mais.

Pensar em Júlio Verne, que, depois de observar e analisar a realidade, imaginar as possibilidades e potencialidades, mesmo que absurdas para aquele momento. Pessoas que sonharam com máquinas, veículos, equipamentos que não faziam sentido naquela época. Por vezes, e não tão poucas, a ficção tem sido o prelúdio do avanço da tecnologia.

Hoje, acionamos simples interruptores de lâmpadas e nem nos damos conta de quanto a ciência e a tecnologia tiveram que evoluir, para alcançarmos esse simples e enorme prodígio. Quantos cientistas se dedicaram a pequenos detalhes, como o interruptor, um botão, que, em conjunto com outros pequenos detalhes, somados a muitos outros cientistas e avanços tecnológicos, compuseram o que chamamos de modernidade, da qual desfrutamos hoje.

Bem, este filme em questão relata um desses eventos, não apenas uma pequena descoberta, mas alguns registros históricos significativos para toda a humanidade, tanto no aspecto positivo, com novo paradigma na Física Gravitacional Newtoniana, quanto no aspecto negativo, a Primeira Grande Guerra Mundial. Embora devamos considerar, como um dos aspectos marcantes desse filme, que, em situação de guerra, não sei se felizmente ou infelizmente, é que conseguimos resultados expressivos no avanço da ciência e da tecnologia e acabamos nos beneficiando, mesmo que indiretamente.

O filme também retrata um dos momentos mais importantes em que a genialidade de uma pessoa, no caso, Albert Einstein, se destaca – e esse é um dos aspectos relevantes para este breve ensaio, a genialidade ou, podemos dizer, a dotação e o talento. Embora fique claro que o personagem real em destaque seja Einstein, seguramente encontraremos outros “gênios” e “gênias” no filme e este é mais um dos aspectos que abordaremos, como já anunciado entre imagem e palavras.

Mas, espere!!!

Talvez você, prezado leitor, prezada leitora, não tenha assistido ao filme ainda. Então…


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Uma palavra pode ser apresentada oralmente ou graficamente e esta última, a escrita, “[…] já nasceu como uma teletecnologia, ou como a primeira tecnologia intelectual que virtualiza a pessoa viva; imagem novamente” (SANT’ANNA, 2001, p. 53).

Imagens, palavras, filmes, tecnologia, ciência, vidas…

Um filme é o conjunto de muitas, muitas e muitas imagens. Não podemos esquecer que de muitas frases também, pois, do contrário, teríamos permanecido com o cinema mudo e, ainda, sem legendas e tampouco créditos.

Provavelmente, você já deve ter assistido ao filme que intitula este ensaio. Pode ter sido no youtube através de um PC, tablet, notebook, smartphone ou similar. Se tiver idade próxima à minha, pode ter assistido em DVD-TV ou, ainda, em fita VHF em um aparelho de vídeo. Pouco provável, mas quem sabe.

Não importa qual tenha sido o aparelho, o fato é que você se utilizou de um equipamento eletrônico moderno, ou nem tanto, e de certa forma nem se deu conta disso. Tampouco pensou no desenvolvimento tecnológico que ocorreu para chegar aos dias de hoje.

Até você, até nós. Com relativa facilidade.

Com certeza, você não observou todos esses detalhes, principalmente quando acionou o botão de liga e desliga do aparelho ou do controle remoto (I/O), que necessariamente precedeu seu “enter” ou “play”. Também não se preocupou com detalhes, como: se há energia elétrica; se tem corrente elétrica; se a potência elétrica da tomada é compatível com o aparelho. Deve ter-se irritado(a) ou aborrecido(a), quando faltou energia elétrica ou se acabou a bateria de seu aparelho, justamente enquanto assistia ao filme e talvez até em um momento em que sua atenção estava toda voltada para uma cena em especial – e, na hora “H”, puft! a energia acabou.

Ou nada disso aconteceu, foi tudo natural, você apenas sentiu necessidade de tomar conhecimento sobre personagens reais que permeiam nosso cotidiano, como Albert Einstein, e decidiu assistir ao filme. Talvez por curiosidade quis saber quem era esse tal de Eddington, personagem real não tão conhecido como Einstein ou, ainda, simplesmente quis entreter-se um pouco, passar o tempo. Assistiu e pronto.

Você já deve ter percebido onde quero chegar. Porém, vou insistir mais um pouco, se me permite. Não se trata de exortação, mas de um convite à reflexão.


 

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Sugiro que interrompa a leitura; isso mesmo! Deixe de ler. Use um marcador de páginas real ou virtual e deixe este ensaio por um momento.

Prepare a pipoca, na pipoqueira ou no micro-ondas, não importa, lembre-se de que as duas possibilidades são avanços da já mencionada tecnologia e que esta é fruto de situações em maior ou menor escala comparativa ao evento do filme em questão, “Einstein e Eddington” (Einstein and Eddington).

Tenha um bom entretenimento tecnológico. Use e abuse do filme, já da pipoca, nem tanto.

Muito bem! Agora que já assistiu ao filme (ou se já havia assistido), podemos continuar.

Convido-a(o) para traçarmos uma linha de comentários comparativos entre o filme, a personalidade do protagonista, Einstein, e a personalidade de alguns dos coadjuvantes, que, na realidade, terão sido protagonistas tanto quanto Einstein; talvez aqui haja certo exagero, mas tudo bem. Para isso nos guiaremos com alguns conceitos discutidos nos domínios da capacidade humana, tais como: a inteligência e a capacidade geral; a criatividade; entre outras. Não é nosso objetivo central aprofundar cada conceito, haja vista que poderão ser estudados e aprofundados nos artigos e livros citados ao final deste ensaio, na referência bibliográfica ou em sítios eletrônicos disponíveis na internet ou, ainda, em outros meios de que dispomos para pesquisas e aprofundamentos.

Os subtemas estão em forma de questões e se apresentam em destaque.

Procuraremos ver o filme do fim para o começo, como se estivéssemos rebobinando uma fita, não obedecendo rigorosamente a uma cronologia invertida, ou a uma viagem no tempo (passado), mas aproveitando a técnica do diretor e do roteirista, os quais iniciaram a narrativa do filme no ano 1919, “viajaram para o passado”, 1914, e “voltaram” a 1919. É ou não é uma viagem no tempo? Bom, ao menos podemos usar e abusar do apelo e dos recursos da arte cinematográfica.

Abordamos aqui uma primeira questão: Curiosidade de fato: Por que lançaram um filme sobre Física, em 2008?

Não sei e ainda não consegui saber. Mas, não teria sido mais lógico que ocorresse em 2005? Afinal, foi este o Ano Internacional da Física, em comemoração ao centenário da Teoria da Relatividade Restrita.


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  • Einstein era um aluno “fraco”?

Diz a lenda que Einstein não foi um bom aluno, o que é contestado por alguns biógrafos, ao afirmarem que ele era, sim, um bom aluno. O que parece ter ocorrido foi o fato de ele não se submeter à rigidez da escola alemã, à época, e de não gostar de algumas disciplinas, como: Letras e Biologia, demonstrando, desde cedo, uma Aptidão Acadêmica Específica para a Matemática e para a Física.

No filme, observa-se o momento em que Einstein é convidado para trabalhar na Academia de Ciências da Prússia, em Berlim. Naquele momento ele já era reconhecido por seus pares como um físico e matemático promissor, tanto que o convite foi feito por Max Planck.

  • O que motivou Einstein a pesquisar sobre a gravidade?

Vemos no filme que Einstein não se conforma com as leis da gravidade de Newton. Ele diz que as leis de Newton funcionam, mas não explicam como a gravidade funciona. Ele quer saber “como Deus pensa”, ou seja, como o universo está organizado.

Podemos ver essa busca quando Einstein está em seu escritório ou em casa, escrevendo fórmulas em papéis, no quadro negro, ou mesmo quando está brincando com seus filhos. Ele demonstra o que chamamos de Capacidade Intelectual Geral, ou seja, uma rapidez de pensamento e uma facilidade para lidar com conceitos abstratos e complexos.


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Essa característica o acompanhou por toda a vida. Mesmo quando estava em momentos de lazer, sua mente parecia estar sempre ligada aos seus problemas de pesquisa. No filme, isso é mostrado de maneira muito clara na cena em que ele está no barco, com sua esposa Elsa, e começa a ter um insight sobre a curvatura do espaço-tempo.

  • Qual a relação entre a teoria de Einstein e a luz?

A grande questão de Einstein era entender como a luz se comporta. Ele já havia estabelecido que a velocidade da luz é constante. No entanto, sua nova teoria – a Relatividade Geral – previa que a luz de uma estrela distante seria desviada ao passar perto do Sol, devido à curvatura que a massa do Sol imprime no espaço ao seu redor.

No filme, vemos Einstein tentando encontrar uma maneira de provar essa teoria. Ele sabe que isso só poderá ser feito durante um eclipse solar total, quando a luz das estrelas próximas ao disco solar puder ser fotografada e medida.

Aqui entra em cena Arthur Eddington, o astrônomo britânico que, apesar de pertencer a um país que estava em guerra com a Alemanha (país de Einstein), decide testar a teoria do colega alemão.


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coração compreendido como um órgão de sentimento e sensibilidade, centralizado em nosso organismo, porém, possibilitando circular e irradiar-se por toda nossa extensão.

Já em nosso filme de estudo (coleção de imagens com frases), o aperto de mãos entre Einstein (alemão) e Eddington (inglês) pode ser considerado um entendimento entre nações, povos que deixam de guerrear e que passam a se admirar mutuamente e trabalhar juntos, complementando-se e completando-se em informações e parcerias colaborativas. Einstein desenvolveu sua teoria a partir de muitas outras teorias e conceitos apreendidos e compreendidos por ele, mas elaborados por muitos outros pesquisadores em vários lugares e em diferentes períodos. Eddington estabeleceu a prática experimental, confirmando a teoria e relativizando todo um universo de leis newtonianas, desenvolvendo, assim, novos paradigmas.

Só a união entre povos, entre mentes, mãos e “corações” pode possibilitar esse tipo de avanço e contribuir com o desenvolvimento de toda a humanidade, de sorte a possibilitar o ganho de todos. Embora haja guerra.

Ah! A guerra! Tivemos a II Grande e sabe-se lá quantas mais, se não nos cuidarmos.

Todavia, temos mais uma questão:

Como perceber toda essa dinâmica de genialidade?

Alguém que consegue observar um fenômeno e, a partir deste, idealizar toda sua ruptura e estabelecer parâmetros para sua reelaboração, ou seja, “refutação empírica”. Podemos chamar de criatividade, o que bem apresenta o artigo intitulado “Que é progresso em ciências?” (BONDI, 2000, p.18):

O fato de não ser possível deduzir a teoria científica mediante qualquer método lógico mostra que a parte vital do assunto é originalidade e imaginação. Formular uma teoria científica implica sempre um salto imaginativo. Não há como conceber um processo mecânico para passar de um conjunto de experimentos ou de observações a uma teoria. Uma teoria será científica se e somente se admitir refutação empírica.

Tanto a originalidade quanto a imaginação podemos chamar de atributos da criatividade, que certamente identificamos como um dos domínios da capacidade humana.


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Podemos classificar essa característica de pensamento criativo ou pensamento produtivo, relacionado “[…] à originalidade de pensamento, imaginação, capacidade de resolver problemas de forma diferente e inovadora, capacidade de perceber um tópico de muitas formas diferentes”, conforme o texto “Definição brasileira sobre a superdotação pelo olhar da ciência” (VIRGOLIM, 2007). Podemos ainda considerar que esse “pensamento criativo ou produtivo” pode estar isolado ou associado a outras características de altas habilidades, apresentadas no mesmo livro, como: Capacidade Intelectual Geral, Aptidão Acadêmica Específica, Capacidade de Liderança, Talento Especial para Artes e Capacidade Psicomotora.

Esses aspectos podem ser observados em algumas atitudes evidenciadas pelo personagem Einstein: no diálogo com Elsa sobre compositores musicais geniais e famosos, descrevendo suas obras e relacionando-as aos sentimentos; momento em que dedilha alguns acordes ao piano; Einstein teve aulas de violino com tenra idade; quando ele apresenta parte de sua teoria gravitacional aos filhos, soltando ovos cozidos para que se espatifassem ao chão; ainda quando, ao saber da morte do filho de Max Planck, estando muito entusiasmado com o potencial matemático de suas descobertas, consegue levar seu amigo, mesmo sofrendo com a perda do filho, na guerra, ao apartamento e, juntos, sentados no chão, promovem um diálogo trivial, porém profundo, sobre a natureza humana, enquanto estabelece as bases matemáticas de sua teoria.

Quando Einstein, inconformado com o desenvolvimento de armas para a guerra, se coloca entre seus ideais e seus companheiros de pesquisa, sua comunidade, seus pares: cientistas, matemáticos e físicos, cria certa animosidade, chegando a certa exclusão dele próprio pelo grupo.

Quanto mais poderíamos descrever sobre Einstein, em cada um desses aspectos, mas seria longo e, de certa maneira, tedioso. Podemos aprofundar, em outros momentos.

Quero ainda retomar a atenção para a Capacidade Intelectual de Einstein. Seu cérebro! Outra questão: Será que o cérebro de Einstein é diferente do nosso?

Encontramos algumas curiosidades, em artigo publicado na revista Galileu (NOGUEIRA; GARCIA, 2004, p. 6-27), entre elas: A obsessão de cientistas em tentar entender como a mente de Einstein podia ser tão genial chegou a limites bizarros após a morte do físico. Seu cérebro foi preservado em formaldeído, fatiado, e pedaços foram…


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enviados para diversos neurocientistas mundo afora. Tudo isso para descobrirem que a massa cinzenta do gênio era igual a de todos nós. Explicar a genialidade parece mesmo algo meio pretensioso, mas os trabalhos que Einstein deixou dão uma pista sobre como era seu processo de criação. A maioria dos físicos e historiadores concorda que uma das principais virtudes dele era o poder de pensar visualmente.

No mesmo artigo, com o subtema “Como ele pensava?”, ressalta-se que, para Einstein, “[o] princípio criativo [da ciência] reside na matemática”.

O texto acrescenta: “Um traço de personalidade importante de Einstein parece ter sido seu espírito rebelde e sua enorme estima pela liberdade de pensamento.”

Essas características podem ser observadas em algumas cenas do filme, principalmente em sua maneira de se vestir, seu modo de andar e de se relacionar com outras pessoas, independentemente se eram familiares, amigos e até desconhecidos e influentes. Ele nos possibilita pensar que somos mais iguais que diferentes ou, preferindo outra forma de pensar, que temos entre nós, seres humanos, menos diferenças que nos afastem que igualdade que nos possa atrair.

Então, podemos estabelecer a seguinte questão: Todos concordam que Einstein era um gênio?

Não é bem assim. Até nisso a questão da dotação e talentos nos faz perceber o quanto a pessoa a que atribuímos o rótulo de supertalentosa enfrenta todos os problemas e dificuldades vividas pelos “simples mortais”, como nós.

Encontramos alguns artigos na revista Humanus (2000, p. 45-54), que tratam de aspectos relacionados ao trabalho de Albert Einstein e algumas características de sua personalidade, demonstrando não haver unanimidade quanto a sua genialidade. Não sabemos exatamente se por sua genialidade enquanto matemático e físico ou se por sua genialidade comportamental, gênio forte em relação às pessoas.

Nos anuários Einstein desmascarado, há um artigo que traz comparações entre Einstein e diversos cientistas que, direta ou indiretamente, contribuíram com o desenrolar da Teoria da Relatividade, de sorte a contestar o fato de só Einstein ter recebido o mérito pelo feito.

O físico Albert Einstein (1879-1955) foi, sem sombra de dúvida, um dos mitos mais celebrados de nosso século: a ele foram atribuídas ge…


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neralidade exagerada, quando, na verdade, seus trabalhos teriam sido resultados de um esforço coletivo e de apropriações de ideias de outros cientistas.

As controvérsias continuam, e isso não é privilégio de Einstein. Muitos outros cientistas e personalidades da história passaram e passam por esse crivo.

Para nós, o que importa é perceber como o filme retrata essas capacidades.

  • Como o filme mostra a parceria entre Einstein e Eddington?

Apesar de nunca terem se encontrado pessoalmente durante o período em que Einstein desenvolvia a Relatividade Geral, o filme cria uma narrativa paralela, mostrando os dois cientistas em seus respectivos países, enfrentando dificuldades semelhantes: a falta de recursos devido à guerra, o preconceito nacionalista e a resistência de seus colegas de profissão.

Eddington é apresentado como o primeiro cientista de renome a compreender a profundidade das ideias de Einstein e a perceber que elas poderiam derrubar a física de Newton, que era a base da ciência britânica há séculos.

A comunicação entre eles, por meio de cartas, é o fio condutor que une as duas histórias. É através dessa troca que Eddington se convence da necessidade de organizar uma expedição para observar o eclipse de 1919.


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atribuído a sua primeira esposa: “No caso da relatividade especial, havia recebido auxílio – nunca por ele reconhecido – de sua primeira esposa Mileva Maric […]”. Este merece um tratamento um pouco mais apurado, assim, abriremos uma nova questão: Qual Einstein? Ele ou ela? Indaguemos: a que Einstein nos referimos, no filme? Tomo emprestado esta indagação – qual Einstein? – da jornalista Fernanda Campanelli Massarotto, em uma reportagem publicada na revista Super Interessante. Qual Einstein? Albert ou Mileva? Estamos abordando aspectos e características de pessoas dotadas e talentosas, deparamos com uma personagem real que tem um papel secundário em um filme cujo sobrenome em destaque também é o seu. Mas uma pessoa que se neutraliza, ao menos na sequência de filmagem. Penso ser no mínimo interessante e, por esse motivo, transcrevo a seguir parte do texto da referida revista, destacando particularmente o trabalho da jornalista (MASSAROTTO, 2001)¹:

Cientista sérvia Mileva Maric (1875-1948) […] menina com inteligência excepcional, bem diferente do garoto avoado e confuso que viria ao mundo 4 anos depois na Alemanha. Albert sofria de dislexia – uma anomalia psiquiátrica que lhe dificultava a compreensão de alguns problemas simples. Embora fosse extremamente inteligente, capaz de incríveis raciocínios, era tomado por alguns como abobado. Ao contrário de Mileva, era um aluno medíocre. […] em 1896, foi a única mulher a ingressar no prestigioso curso de matemática do Instituto Politécnico de Zurique, Suíça. “Ela cultivava a fama de boa aluna. Ele tinha reputação de preguiçoso. Ela o ajudava a resolver teoremas matemáticos […] triste e calada […] o físico dizia para quem quisesse ouvir que o cérebro da sérvia o ajudava nos trabalhos […] casaram em 1903 […] Em 1905, Einstein publicou a 1ª versão da Teoria da Relatividade Especial. O nome de Mileva constava como coautora, mas não apareceu nas versões posteriores […] Einstein falava da “nossa teoria” […] surgiu uma polêmica que provavelmente nunca terminará.

Realmente, há uma cena no filme em que ela questiona o caminhar sozinho de seu marido, em relação ao trabalho que costumavam desenvolver juntos, na matemática.


¹ Revista Superinteressante n. 171, Dezembro 2001, p. 27.s”.


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  • O que o filme nos ensina sobre a persistência?

Tanto Einstein quanto Eddington demonstram uma persistência admirável. Einstein passa anos lutando com a matemática de sua teoria, enfrentando erros e becos sem saída. No filme, há um momento dramático em que ele percebe que cometeu um erro em seus cálculos, mas ele não desiste; ele volta ao trabalho com mais afinco.

Eddington, por sua vez, enfrenta a oposição da comunidade científica britânica e as dificuldades logísticas de organizar uma expedição em meio aos destroços de uma guerra mundial. Ele persiste porque acredita que a verdade científica é mais importante do que as fronteiras nacionais.

Essa persistência é uma marca característica de pessoas com altas habilidades e talentos. Elas possuem o que chamamos de Envolvimento com a Tarefa, uma motivação intrínseca que as leva a dedicar longas horas e enorme esforço para resolver problemas que consideram significativos.


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  • Como tratar do assunto dotação e talento na escola? Einstein e sua vida escolar. Além das informações a esse respeito já abordadas anteriormente, especialmente quando comparado as qualidades de sua primeira esposa, Mileva Maric, apresentaremos alguns outros relatos. Gilberto Dimenstein e Rubem Alves dialogam entre si, considerando alguns fatos escolares e alguns personagens reais, como Einstein. Acompanhemos esse diálogo (DIMENSTEIN; ALVES, 2004, p. 33):

Gilberto – Sabe o que nos ajudou muito (me ajudou pessoalmente)? Foi a Teoria da Relatividade, que até hoje eu não sei. Mas soube que o Einstein era mau aluno. Isso me foi dito quanto eu era pequeno. Que ele era débil mental (sic), era tido como débil mental. Rubem – Ele foi reprovado em matemática.


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  • A música era importante para Einstein?

Sim, e o filme retrata isso muito bem. Einstein é frequentemente visto tocando violino. Ele dizia que a música o ajudava a pensar e que, se não fosse físico, provavelmente seria músico.

“A vida sem música é, para mim, inconcebível. Eu vivo meus devaneios na música. Eu vejo minha vida em termos de música… Eu tiro o máximo de alegria na vida através da música.” (EINSTEIN)

A música não era apenas um passatempo; era uma forma de organizar o pensamento e de se conectar com uma ordem estética superior. Isso demonstra um Talento Especial para as Artes, que muitas vezes caminha junto com o talento científico.


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Em Zurique decidiu tornar-se professor de Física e seguiu cursos para esse fim. A escola em que Einstein conseguiu reconciliar-se com o ensino secundário e assim completar o conhecimento necessário ao ingresso na escola superior assume especial importância da História da Ciência e também da Pedagogia.

Penso que esse relato, embora longo, vem de certa maneira contemplar nossos anseios: uma família que apoia, orienta, e uma escola que possibilita as várias e diversas maneiras de ensinar e de aprender. Mais um aspecto que trago para reflexão, aproveitando todo este “ambiente” didático e “clima” pedagógico, que está na mesma questão escolar: trata-se da falta de atualização, de aprofundamento conceitual ou ainda de correlação de conteúdo teórico e prático, abordado no texto “Um cenário conceitual confuso” (GUENTHER; RONDINI, 2012, p. 237-266) sobre capacidade, talento, dotação e habilidades, mas que também pode ser adaptado para qualquer outra área de conhecimento educacional. Segue o texto adaptado:

Um problema permanente na área da educação […] é a desconfortável diferença entre o conhecimento existente e a prática diária nas escolas. A maior parte do saber acumulado pela pesquisa científica, mesmo quando disponível aos profissionais da educação, permanece ao nível de discussão, publicações e comunicação em meios acadêmicos. Tal conhecimento não chega ao destino final, a sala de aula, e os professores não parecem ver relação entre o que se estuda […] e o que acontece, de fato, no trabalho diário com os alunos.

E finalizando, porém tendo como referência a primeira metade do filme, vemos que Eddington, depois de muito observar e refletir, percebe que há um aspecto em aberto relacionado ao planeta Mercúrio e transfere essa questão, por carta, ao próprio Einstein e este passa a buscar solução para o problema levantado. Observe que temos aqui o fundamento que se fazia necessário para a comprovação da teoria de Albert Einstein, frente à teoria de Isaac Newton. Quem levantou essa questão tão significativa para a solução desse problema? Não seria esse cientista também uma pessoa com dotação e talento? Simon Newcomb² (1835-1909) ou Newcombe (HARRÉ et al., 2000, p. 19-23) – é este o cientista.


² Disponível em: www.britannica.com. Acesso em: 24 fev. 2016.


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  • Como Einstein lidava com a fama?

O filme termina com a ascensão de Einstein ao status de ícone global. Ele parece um pouco desconfortável com a atenção excessiva da imprensa e do público. No entanto, ele aprende a usar sua fama para promover causas em que acredita, como o pacifismo e o sionismo.

Sua imagem, com os cabelos brancos desalinhados e o olhar profundo, tornou-se o símbolo universal do “gênio”. Mas o filme nos lembra que, por trás da imagem, havia um homem que lutava com dúvidas, que amava, que errava e que tinha uma curiosidade insaciável sobre o mundo.

  • Conclusão sobre o filme e as Altas Habilidades:

Ao final da projeção, fica a sensação de que fomos testemunhas de um momento único na história da humanidade. O filme consegue traduzir conceitos áridos da física para uma linguagem emocionalmente impactante.

Ele nos mostra que a genialidade não é um dom divino isolado, mas o resultado de uma combinação de Capacidade Intelectual, Criatividade e um profundo Envolvimento com a Tarefa, tudo isso permeado por um contexto histórico e pessoal complexo.


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Einstein e Eddington são exemplos de como a busca pelo conhecimento pode unir pessoas de diferentes culturas e ideologias em torno de um objetivo comum: compreender os mistérios da natureza.

Esperamos que este ensaio e o filme tenham despertado em você a curiosidade de saber mais sobre esses personagens e sobre os domínios da capacidade humana. Afinal, como Einstein mesmo disse:

“O importante é não parar de questionar. A curiosidade tem sua própria razão de existir.”


Referências Bibliográficas sugeridas no texto:

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